Setembro 28, 2006
fotografando o dia (47)
flâmulas
funâmbulas
flamejam
erectas
aos céus que almejam
etéreas
eternas
oscilam
à brisa que branda
as viceja.
foto e poema de Jorge Castro
Setembro 26, 2006
fotografando o dia (46)
ao ler um livro
se gosto
é um reflexo de mim
e letra a letra
palavra
conceito
e tudo por fim
entra em mim e nele me enleio
e no doce devaneio
fica livro e eu
só um
foto e poema de Jorge Castro
Setembro 22, 2006
fotografando o dia (45)
Por terras de Miranda do Douro
no ar ressoam ribombos
caixas de guerra e os bombos dos regatos na invernia
e as gaitas de foles ecoam
entre um lhaço da gaitada no xisto da penedia
são festas do solstício
de caretos e alta berra
e cada dia é um início de bogalhos o bulício
mãos mergulhadas na terra
saia a chouriça com bulha
ou saia o bulho com cascas
que por lá o céu mais brilha entre o dourado das ervas
contra as vascas da agonia
junto ao folar da cor de ouro
pelas arribas do Douro
tamborilando na posta posta à mesa numa encosta
mais brava que bravo touro
ao céu se lançam arribas
transmontanas sem quartel
contra o fel crescem mais vivas
mais agrestes e sentidas bordadas a vinho e mel
e sem alma que o derrote
arre burro vai ligeiro
espevita-me esse trote sem arreios nem arnês
que ali vai um pauliteiro
que é português por inteiro
mas que fala mirandês.
foto e poema de Jorge Castro
Setembro 18, 2006
fotografando o dia (44)
olha
mãe
tenho fome de viver
dá-me calor
acalanto
mas dá-me também o tanto
de voar
e de saber
foto e poema de Jorge Castro
- Não me conformo! Aprendi com os meus pais e em quantos livros li que a edificação e abertura de uma escola tornava um país mais rico.
Quando seria de esperar o regozijo por se inaugurar uma escola lá onde a persistência das gentes, comendo tantas vezes o pão que o diabo amassa, colhe a alegria de contar AINDA com uma dezena de rebentos, os nossos "eleitos" decidem, a bem das finanças "públicas", encerrá-las.
A conversa é estafada. E, pessoalmente, também já estou estafado com ela. Mas eu, que sou homem de votar sempre, aqui declaro que jamais votarei em qualquer agrupamento político que defenda ou assuma esta atitude.
Não há, no meu ver de cidadão, qualquer legitimidade ou argumentação admissível para que o estado encerre uma escola, desde que haja UM aluno que possa frequentá-la. Não há, claro, exceptuando a da defesa inconfessável do ensino massificado, acrítico... floribélico. Mas tudo "alindado" com o argumento, ao rés do asco, da "racionalização de custos".
Ou, então, assuma-se de vez a incongruência do "interior" e proiba-se liminarmente que ele seja habitado por humanos. Fica tudo entregue à bicharada, que as organizações ambientalistas até agradecem e acaba-se de vez com argumentos hipócritas e mal amanhados que nos insultam a inteligência - o que, por si só, será já tarefa misericordiosa...
Setembro 14, 2006
fotografando o dia (43)
digam lá qual é mais belo:
o verde?
o azul?
o amarelo?
ou o conjunto das cores
cada uma
a enriquecê-lo?
foto e poema de Jorge Castro
Setembro 12, 2006
consequências (retardadas) do 11 de Setembro, cá no burgo - um contributo filosófico
Tanto se ajuiza sobre o 11 de Setembro, alegando que nada ficou como dantes e porque já ninguém quer saber o que isso poderá significar, traduzido em miudos, tratando-se apenas de trazer para casa uma opinião embrulhada em plástico, pronta a digerir... e toca a andar, lembrei-me de me debruçar sobre as verdadeiras consequências do 11 de Setembro aqui, por este jardim mal amanhado...
E, contra opiniões cépticas, creio ter chegado a conclusões luminosas. Ei-las:
- O encerramento de escolas alegadamente com poucos alunos, contra a vontade de todos os agentes do tecido social portuga é uma das consequências! É indubitável que o baixo número de alunos nas turmas promove a maior capacidade de transmissão de conhecimentos. E nada pior do que um descontente, interior (pois, pois, o contrário de litoral...) e esclarecido. Dá terrorista pela certa!
- O aumento de produtividade das nossas empresas, traduzido pelo espantoso incremento das frotas automóveis de serventia aos respectivos gestores, que deixa a perder de vista os nossos congéneres europeus é outra consequência! Podemos imaginar o que seria centenas ou milhares de luso-endinheirados, obrigados a andar em chavecos tais quais os da populaça... Decerto canalizariam esse fatal descontentamento, essa raivinha social, para o subsídio a organizações pouco claras ou mesmo obscuras, de indizíveis objectivos!
- A promoção do futebol a alma mater dos nossos sentir e viver é, também ela e ainda, outra consequência do 11 de Setembro! Imaginem a quantidade de terroristas portugas à solta por esse país - que digo eu? - mundo fora, se a sua ociosidade não fosse tão ocupada com os pontapés na bola que os outros dão...
- O trânsito absolutamente caótico e as intermináveis obras viárias são, sem sombra de dúvida, consequências da terrível data! Quem poderá imaginar a preparação de um ataque bombista, um mero carro armadilhado, um suicida qualquer, a embrenhar-se no trânsito de Lisboa ou do Porto? Jamais, sim, jamais lograria alcançar a tempo o seu objectivo...
- As próprias maternidades, encerrando no interior... é porquê? Lá está! Combate ao terrorismo, claro! Nascerem pivetes ranhosos, filhos de pais ressabiados por não poderem usufruir de um bejeca by night nas Docas, ou de uma volta ao Castelo do Queijo, é promover gerações de descontentes, com pedras nos sapatos e a ira nos rostos! Acabe-se já com isso!...
Não me canso de descobrir exemplos de como o "espírito do 11 de Setembro" é benéfico para Portugal! E não me canso, outro tanto, de agradecer aos deuses das coisas pequenas a benesse que é para todos nós termos governantes assim, tão injustiçados, mas que tão bem sabem proteger-nos do "Mal"! Amen...
Setembro 10, 2006
fotografando o dia (42)
S. Miguel - Açores
sei de um mar de nuvens todo
que a brisa à solta estremece
verde-mar a ver de terra
nascente mal amanhece
e o verde dá tempo ao tempo
matiz de azul feito de água
que nem o sustenta a mágoa
nem de súbito enlouquece
cratera ventre do mundo
que a mão do homem conhece
feita de verde profundo
e tanto azul que entontece...
foto e poema de Jorge Castro
Setembro 06, 2006
Queixinhas!
Passei um excelente período de férias, rodeado de verde por todos os lados.
Por isso só agora tropecei com a saga da "polémica" - perdoem-me as aspas, mas a paciência é pouca; coisas da idade, claro... - criada pelas declarações que o crítico Eduardo Cintra Torres, na páginas do Público, dirigiu à Direcção de "Informação" - lá estão as malvadas aspas, outra vez... - da RTP, a propósito da alegada atitude de subserviência desta relativamente ao governo de Sócrates, na questão dos incêndios e com especial relevância para o grande incêndio que destruiu parte significativa do Gerês.
Face à acusação do crítico - que pela sua experiência no ramo, devo presumir que, ao citar "fontes" esclarecedoras e sabendo o vespeiro em que Portugal está atolado, sabia do que estava a falar e no que se estava a meter - logo irrompeu um coro de bonzos virginais (da RTP, claro, mas não só), com suposta dignidade violada, no aqui d'el-rei costumeiro de quem, brutalizado por tão extremo acto, jamais conhecerá a felicidade do matrimónio, por previsível repúdio dos seus pares e da sociedade em geral.
E, então, sem mais aquela, intentam de imediato lavar a honra ofendida com um processo em tribunal!...
Sabe quem me conhece que nem me movem especiais razões de simpatia pessoal por Eduardo Cintra Torres, o que não me impede, de todo, de em diversíssimas circunstâncias partilhar das suas opiniões e de aplaudir o seu desassombro analítico.
Dito isto, o busílis: o que é que tem de tão grave a acusação de Cintra Torres? Pior: o que é que contém de tão original que não o saibamos todos já, cá pelo burgo, matéria que prodigaliza constante falatório e anedotário nos meios mais díspares do diz-que-diz nacional?
O(s) governo(s) instrumentaliza(m) a RTP, a tal do serviço público? Ai, não me digam!!!... Será verdade??? E as demais empresas públicas e de serviços, mesmo as mais ou menos privadas? Ai, também??? Parece impossível!...
Ressalta, então, para mim, da referida "polémica" apenas a hipocrisia bajuladora dos tais bonzos que, presumivelmente, de tão aconchegados pelo poder, nem carecem de receber deste instrução precisa sobre esta ou qualquer outra matéria, pois eles lá estão exactamente para escudarem quem os mima e protege. Em boa verdade, não se escolhe gente desta à toa...
Por outro lado, ouvir da boca de um "jornalista" que anseia por assistir a um seu colega de ofício revelar, obrigado em tribunal, as suas fontes, é de uma miséria moral e argumentativa que causa pena, antes do asco.
Asco maior, por se saber o que significa "entalar" um cidadão com processos intermináveis nos tribunais a que temos direito.
Se o que Eduardo Cintra Torres revela não é verdade, então de que está à espera a Direcção de "Informação" para promover, nesse meio soberano que é a RTP, um cabal desmentido, trazendo ao ecrã um trabalho de fundo e objectivo sobre a catástrofe (leia-se pouca vergonha) nacional dos incêndios?
Isso é que seria um grande desmentido, não acham? E, a bem da objectividade, até o próprio Sócrates, nesse programa, poderia tentar esclarecer, por exemplo, ao vivo e a cores, porque é que as matas e florestas à guarda do governo não são limpas, enquanto os particulares sofrem tratos de polé se o não fazem nas sua propriedades privadas.
E assim destruiriam a tese de Eduardo Cintra Torres. Fácil, não é? Tribunais para quê, ó bonzos?... Queixinhas, é o que vocês são!
Setembro 05, 2006
era um tempo feito de verde-infinito
era um tempo feito de verde-infinito
era um tempo de água suave e neblinas
era um tempo de silêncios sem notícia
e a ondulação leve carícia contra o cais
era um tempo de flores e voo de aves
era um tempo inventado sem jamais
era um tempo só de azul das maresias
e amarras nunca mais - oh nunca mais
e era sempre esse mar todo a fluir
e era tanto de mim na brisa da tarde
e essa imensa vontade de sorrir
quando ao rés do choro o coração nos arde
e onde estavas enfim se te procuro
e o encontro resta em vão perto da prece?
e porque fica tão obscuro o desinteresse
quanto vago é o que à vida a vida empresta?
mas o verde e o azul do mar estão em festa
e amarras nunca mais - oh nunca mais!...
- poema de Jorge CastroApontamento:
É mesmo o Gerês que está a arder, de novo?
Ainda bem que há noticiários pois, em caso contrário, como saberíamos que, nesta terra, gostamos tanto de ser des(en)graçados... Não, não! Não estou a falar dos incêndios. Eu estou mesmo é a falar do futebol...
(Pouco claro, quem? Eu?... Essa agora! Se calhar estão à espera que eu também me deixe cair na esparrela do processo em tribunal... Vade retro!)
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