Outubro 28, 2006
fotografando o dia (50)
se tivesse mais de azul seria excesso
se houvera mais de rosa uma miragem
assim tive eu o dia
assim o meço
sem que ninguém cruze o enredo da paisagem
foto e poema de Jorge Castro
Outubro 24, 2006
algumas causas - boas, digo eu...
Não se salvará o mundo e há, até, quem diga que estas petições têm um futuro duvidoso. Mas "enquanto dura, vida doçura"... E nunca são demais os despertadores de consciência em terra de sonolências.
---*---
Entretanto, o meu amigo Pedro Mota lança um livro, no dia 26 do corrente. Porque "sou homem e nada do que é humano me é estranho", vejam lá se vos interessa, também, saber:
A Princípia Editora, através da sua marca Lucerna, e a Livraria Ler Devagar convidam para a sessão de lançamento do livro de
Alexandre Coutinho, Luís Filipe Mota Machado e Pedro Mota Machado
A IRMANDADE DOS ROMEIROS
que terá lugar na Galeria Zé dos Bois, na Rua da Barroca 59, Bairro Alto, Lisboa, no próximo dia 26 de Outubro de 2006, às 21h30m,
com apresentação de João Bosco Mota Amaral.
A IRMANDADE
DOS ROMEIROS
de Alexandre Coutinho, Luis Mota Machado e Pedro Mota Machado
As Romarias de São Miguel constituem a peregrinação mais completa que se efectua, hoje, em Portugal. Trata-se de uma manifestação genuína de fé que emana do povo e é absolutamente única no mundo, por se tratar de um périplo em torno da ilha, que começa e termina na mesma igreja. Trata-se de uma tradição velha de mais de 400 anos, que teve a sua origem em Vila Franca do Campo, na sequência do sismo que destruiu a povoação por completo em 22 de Outubro de 1522. Alexandre Coutinho, jornalista, viveu pessoalmente esta experiência única de penitência individual e colectiva, de que dá conta num texto permeado de reflexões pessoais que enaltece as virtudes e o valor dos romeiros. As inúmeras fotografias deste livro foram feitas nos dois últimos anos por dois irmãos açorianos, Luís Filipe e Pedro Mota Machado, e já foram objecto de uma exposição – «Bordões de Luz» – no Centro Municipal de Cultura de Ponta Delgada. Da autoria de Pedro Mota Machado são também os textos de invulgar beleza poética enquadrados nas caixas que o livro apresenta a par e passo em complemento ao texto-base.
Outubro 21, 2006
fotografando o dia (49)

levando aromas à rua
naquele recanto da vida
em que rua é tanto sua
e ali o sol a dar nelas
solidário a dar-lhes vida
sob o olhar das janelas
em vasinhos de cheirinhos
o verde ao negro dá vida
na lonjura dos caminhos
foto e poema de Jorge Castro
Outubro 18, 2006
Miguelancho Prado chama-lhe
“Quotidiano Delirante”
Falta de Educação
Ouvi o primeiro-ministro José Sócrates dizer não ser admissível que os professores portugueses sejam o único grupo profissional que atinge “obrigatoriamente” o topo de carreira no fim da sua vida profissional. Para além da enormidade e falta de rigor da afirmação, não acreditei nos meus ouvidos.
Inadmissível porquê? Não foi o estado português a criar estas e tantas outras regras, como “pagamentos em géneros” aos funcionários públicos (que os professores do ensino oficial também são), anos e anos a fio, para “evitar” puxar pelos cordões à bolsa através de pagamento de ordenados mais “europeus”? Ou terão sido os próprios professores, clandestinamente e à revelia do estado, a cozinhar o pratinho e todos andamos iludidos, até o próprio estado, coitado, porventura apanhado a dormir na forma?
E José Sócrates, neste contexto, é mal-intencionado, ignorante, distraído ou mentiroso? Não lhe vislumbrando eu outras alternativas de postura, qualquer das opções não me augura nada de bom para o exercício da minha cidadania…
A propósito, uma sugestão para as justas causas dos professores: deixem lá as greves, que apenas ajudam as finanças públicas e favorecem as demagogias de quem vos quer "entalar".
Que tal fazerem greve, sim, mas às avaliações oficiais dos alunos? Aos excelentíssimos progenitores até poderiam ser transmitidas as informações sobre o aproveitamento escolar dos seus pimpolhos, o que atenuaria amarguras. Mas oficialmente, nada!
Afinal, a gritante e absoluta falta de condições de trabalho nas escolas daria sustentabilidade bastante à atitude.
Talvez assim os nossos governantes se preocupassem, enfim, em redescobrir o verdadeiro caminho marítimo para a Finlândia...
Energia… da boa
A Entidade Reguladora (???) do Sector Eléctrico anuncia a “inevitabilidade” de aumentos de 15,7% no tarifário dos consumidores de baixa tensão – aqueles, afinal, que já pagam regularmente a fatia mais que substancial da factura que permite o anúncio, também ele regular, de lucros piramidais à EDP… Ainda para mais, se esta Empresa se encontra mais saudável do que nunca, financeiramente falando...
Além disso, a electricidade não é já bem mais barata aqui ao lado, em Espanha? E não é suposto que o mercado foi (ou está para ser, a breve trecho) liberalizado?
Então, trata-se de impor, aos diversos “parceiros” futuramente no terreno, uma bitola mínima, contrariando toda a lógica de mercado ou isto é o quê? Ah, sugere um secretário de estado que o aumento será para "ajudar" as empresas... Mas desde quando, na iniciativa privada, é o cliente que trata, pelo menos directa e despudoradamente, do saneamento financeiro das empresas? Isto não será raciocínio movido a álcool? Ou a EDP vai transformar-se numa cooperativa?
Post-post, em 20 de Outubro - Após ouvir, embevecido, a miríade de esclarecimentos que os mais esclarecidos entendidos têm vindo a produzir sobre esta ponderosa e obscura matéria, concluindo pela minha abissal ignorância, aliada à certeza de que todo o mundo anda a produzir números fabricados, para iludir o zé-povinho e espevitar accionistas - assim a modos que um jogo do monopólio, com dinheiro (nosso) a sério - deixaria uma sugestão:
- perante a inevitabilidade de toda esta desgraceira, que tal pensarmos, seriamente, em adquirir a energia, toda e de uma vez por todas, em Espanha, que eles por lá têm artes de produzir tudo mais barato, em vez de andarmos a brincar às casinhas?... E com as poupanças, investíamos a sério em energias alternativas, mais "limpas" e que nos tornam menos dependentes de combustíveis que não temos.
O único óbice seria a soberania. Mas isso interessa a alguém para alguma coisa?...
Já agora e por falar em energia… fui hoje abastecer a minha viatura a um posto da Galp. Ao lado da fila de pagantes, uma espantosa e belíssima jovem, dona de umas espantosas pernas e de um espantoso tudo o resto, vestida com uns minúsculos calções – ainda para mais, dois ou três números abaixo do que parecia recomendado para o corpo que vestiam, o mesmo acontecendo com a alva camisa que descobria o tronco – do alto dos seus tacões de duplo decímetro, ostentava um braçado de balõezinhos de cor laranja, com publicidade à firma, que ia entregando… mas só depois do pagamento de combustível efectuado.
Era inegavelmente um prazer para a vista, no fim de um dia de trabalho. Mas, para além desse prazer visual e à falta de algum peludo exemplar “musculino” que - imagino-o de fio dental e botas de montar - contrabalançasse democraticamente tal desequilíbrio social, pergunto-me:
- Aquela jovem estará assim tão desesperada para ganhar dinheiro que se presta àquele ridículo de canhestro apelo sexual em local público? E quem a contratou para aquilo terá filhas? Se sim, porque não terá lá posto as suas? Sempre sairia mais barato à empresa. Seguramente. Ou talvez não.
Querem saber? Afinal, acabei por nem aceitar o balãozinho...
No fundo, concluo que eu é que estou a ficar um sórdido moralista, essa é que é essa!... Tudo o mais será este absurdo "progresso" e esta perturbada "modernidade" a que nos querem conceder "direito" (abençoadas aspas!).
Outubro 16, 2006
fotografando o dia (48)

quando o mar nos faltar
sobre o engenho...
mas irá o mar voltar
com o mesmo empenho?
- Oeiras, escultura de Augusto Cid
Foto e poema de Jorge Castro
CONVITE
Dia 18 de Outubro, na Biblioteca de Cascais, em São Domingos de Rana,
a sessão mensal de NOITES COM POEMAS, subordinada ao tema
Da Vida À Mourão-Ferreira
Outubro 11, 2006
convites
- Caos Organizado, de Bruno Paiva
- Paula Raposo lança "Canela e Erva Doce"
- Adriano Correia de Oliveira vive
Convite 1
Bruno Paiva
expõe a sua pintura em Almada, a partir do próximo dia 13 de Outubro de 2006.
Tema: Caos Organizado
Serão ditos poemas por Jorge Castro e Rui Farinha
Local e hora do evento: Imargem - Galeria
(Rua Torcato José Clavine, 19 - Piso 03, no Pragal - largo das Finanças),
a partir das 21h30
Convite 2
Lançamento de livro
No Sábado, dia 14 de Outubro às 18.30, será lançado o meu livro de poesia “Canela e Erva Doce”, no bar Onda Jazz, que fica junto ao Campo das Cebolas.O livro foi prefaciado pelo Gonçalo Nuno Martins e será e editado pela Magna Editora. E este post é um convite a todos os que aqui me lêem para que compareçam neste lançamento. Terei imenso gosto em contar com a vossa companhia. A entrada é, logicamente, livre. E pronto… é só isto…
posted by Paula Raposo
(... E eu também por lá direi uns poeminhas...)
Convite 3

Outubro 09, 2006
Em Miranda do Douro houve trigo
Por Miranda passámos. Houve encontros, desencontros; risos e queixas, como quando muitos humanos partilham um espaço...
Mas prevaleceu sempre - corrija-me quem assim não julgar - a tentativa de abrir janelas de vida entre cada um dos participantes.
Não se tratou, apenas, de lançar o meu pequeno livro no mar tumultuoso do acaso, mas sim de o fazer por entre uma corrente de afectos, num recanto ainda mal conhecido de Portugal, mas que tem essa bandeira maior de ter sido capaz de criar e sustentar uma língua - hoje oficial - talvez por combate, talvez por teimosia, seguramente por afirmação do direito à diferença, que a todos nos enriquece.
Na verdade, a larga maioria da cerca de uma centena de amizades que se uniram a mim neste desafio nunca visitara o planalto transmontano, neste seu recanto mais recôndito.
Congratulo-me, pois, por ter aberto essa janela florida, lançando, apesar do tempo escasso, sementes de curiosidade e pistas para a descoberta.
E porque todo o acontecimento se produz graças à abnegação solidária de poucos (mas bons) para que muitos disfrutem, aqui fica, com um abraço imenso, o reconhecimento e agradecimento públicos aos meus grandes amigos Alberto Nobre, de Sendim, a quem todos ficamos a dever a presença graciosa dos gaiteiros e tamborileiros de Palaçoulo e a organização daquele precioso jantar e ao Edgar Dolgner, pela disponibilidade e brilhante exposição na visita guiada ao Aproveitamento Hidroeléctrico de Picote, no Barrocal do Douro.
Outubro 04, 2006
La Lhéngua Mirandesa
E lá me vou até Miranda do Douro, terra dos meus afectos e da minha "nineç"...
Desta feita, levo comigo setenta amigos, em preito de homenagem a quem teve artes de sustentar a diferença e o seu direito a ela. Por lá apresentarei o meu livro "Havia Trigo", em versão bilingue (português e mirandês).
Até para a semana. Deixo-vos com a lhéngua mirandesa:
La Lhéngua Mirandesa, doce cumo ua meligrana, guapa i capechana, nun yê de onte, detrasdonte ou trasdontonte mas cunta cun uito séclos de eijistência.
Sien se subreponer a la "lhéngua fidalga i grabe" l Pertués, yê tan nobre cumo eilha ou outra qualquiêra.
Hoije recebiu bida nuôba.Saliu de l absedo i de l cenceinho an que bibiu tantos anhos. Deixou de s'acrucar, znudou-se de la bargonha, ampimponou-se para, assi, poder bolar, strebolar i çcampar l probenir.Agarrou l ranhadeiro para abibar l lhume de l'alma i l sangre dun cuôrpo bien sano.
Chena de proua, abriu la puôrta de la sue priêça de casa, puso fincones ne l sou ser, saliu pa las ourriêtas i preinadas...
Lhibre, cumo l reoxenhor i la chelubrina, yá puôde cantar, yá se puôde afirmar. A la par de l Pertués, a partir de hoije, yê lhuç de Miranda, lhuç de Pertual.
Texto de Apresentação do Projecto Lei de reconhecimento dos direitos linguísticos da Comunidade Mirandesa.
Assembleia da República
Lisboa, 17 de Setembro de 1998
Outubro 03, 2006
Bestiário
Dos jornais, de 03 de Outubro de 2006: “os caracóis são peixes de água doce”, afirmação constante na legislação comunitária que sustenta a manutenção de subsídios às quintas de caracóis francesas…
um caracol dá em peixe
um chuvisco em trovoada
uma alforreca em desleixe
cruza as pernas na esplanada
um gato que não é cão
uiva e ladra aos quatro ventos
arengando até mais não
quando lhe afagam lamentos
o bacalhau do sustento
é peça de fino trato
e pelo mesmo espavento
vai o carapau do gato
o pelintra chico-esperto
com padrinho e de gamela
prédio a prédio é mais que certo
ter comenda e vida bela
ninguém dele fica seguro
de sequer valer um chavo
mas é cão – é mula – é duro
pantanoso é pato-bravo
rataria é já família
os porcos são bons dadores
cágados vão p’la mobília
tudo engenheiros - doutores
na urbe o cão proletário
vadiando o doce embalo
tropeça num dromedário
dando chutos no cavalo
pelo andar que isto leva
tenho por certo e sinistro
que bruto sem saber peva
irá de burro a ministro
p’ra tanto lhe bastará
ter padrinho e bom cangaço
fretes dando ao deus-dará
jeitinhos de torcer braço
nem se leve ao bicho a mal
tanta cruz tanta agonia
que frete a frete afinal
depressa lhe rende o dia
e tanto sapo engolido
sem irmos à desobriga
p’lo beijo do conto lido
cresce-nos rei na barriga
por tanto vamos vivendo
contentinhos que nem ratos
pouco temos nada tendo
neste quá-quá-quá de patos
na labuta quais formigas
na alegria tais cigarras
felizes estamos p’las migas
ao som quente das guitarras
e há ursos – há camelos
bezerros pelas touradas
crescem a todos os pêlos
mas em todos há peladas
e chocas são mais que muitas
bestas que o povo consente
sejam às riscas - às pintas
tudo vai p’lo inteligente
chatos – pulgas – carrapatos
sanguessugas e carraças
há que dar corda aos sapatos
e fugir deles… cu’mò caraças!
- versinhos de Jorge Castro
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